Só quem já teve um bichinho destes grudado no corpo sabe o quanto é desconfortável. O que muitas pessoas não sabem é que eles também podem ser transmissores de algumas doenças bem graves aos animais e humanos. Como minha especialidade é tratar de bichos, então vou discorrer sobre as doenças nos animais.
O carrapato é um ácaro que está mais presente em nosso meio
do que a gente possa imaginar. Hoje ele deixou de ser uma praga rural e está amplamente distribuído pela cidade. Muitos animais se infestam nos parques e praças da cidade sem nunca ter ido a uma fazenda ou sítio. Além de
causar no local da picada uma lesão eritematosa e com coceira, também pode ser transmitir doenças como a erliquiose, babesiose,
doença de Lyme, borreliose e febre maculosa. Dentre estas, as mais comuns são a
Babesiose e a Erliquiose. Convém citar que não são todos os carrapatos que
transmitem a doença, apenas os carrapatos contaminados com os agentes causadores destas patologias.
ERLIQUIOSE
 |
| Macho |
 |
| Fêmea de Rhipicephalus |
É transmitida por carrapatos do gênero Rhipicephalus sanguineus, o carrapato marrom do cão, que pode estar carregando o parasita Erlichia canis. A infecção ocorre quando
o carrapato se alimenta do sangue e sua saliva contamina o local onde ele pica.
Depois de uma incubação de 8 a 20 dias, vem as três etapas da
infecção:
-
Fase aguda:
dura de 4 a 8 semanas , com o início dos sintomas durante a primeira e a terceira semana pós infecção. Em geral são
benignos ou inaparentes. Os sinais mais comuns são: letargia, falta de apetite,
perda de peso, mucosas mais pálidas e febre. Podem ocorrer alguns sinais
respiratórios. Em geral, encontram-se carrapatos no animal.
Os sinais de fase aguda quase sempre se resolvem sem
tratamento, porém os cães podem permanecer infectados e entrar na fase
subclínica da doença.
-
Fase sub clínica
e crônica: a fase subclínica dura de seis a nove semanas e pode terminar e
iniciar a crônica. Em algumas áreas enzoóticas, os cães podem sofrer infecção
subclinica por meses a anos. Os sinais clínicos são: depressão, perda de peso,
mucosas pálidas, flacidez abdominal, episódios de cegueira, infecções
secundárias, edema escrotal e de extremidades. Podem ocorrer hemorragias
caracterizadas por pequenos pontos vermelhos (petéquias) no abdomem e mucosas.
Podem ocorrer hemorragias internas, provocando sangramento nasal, pulmonar e
fezes sanguinolentas.
Anormalidades oculares são caracterizadas por conjuntivite,
edema corneal, brilho aquoso entre outras.
Podem ocorrer sinais neurológicos compatíveis com meningite,
resultando em cegueira, ataxia, hiperestesia e convulsões.
Diagnóstico:
O diagnóstico é feito pelos sintomas, exame físico e testes
laboratoriais. O teste específico para a doença e com 96% de precisão é o teste
do PCR (Polymerase Chain Reaction = reação em cadeia da polimerase). Esta técnica permite a ampliação do DNA ou RNA in
vitro, utilizando uma reação enzimática catalisada pela enzima polimerase.
Esse é um teste de DNA que irá detectar o parasito em uma pequena amostra. Por
não resultar em falsos positivos, é o
melhor método diagnóstico .
O hemograma deve ser feito para acompanhar o estado
hematológico do cão, mas não é um teste específico, já que as alterações
hematológicas podem acorrer mais tardiamente.
A sorologia pode ser um meio diagnóstico a ser utilizado,
porém falsos negativos podem ocorrer, principalmente em animais que já tiveram
a doença, além de que o título de anticorpos pode diminuir de
repente em alguns cães, justamente antes do óbito.
Tratamento
É feito com produtos antirickettsiais e medicação de
suporte. Usam-se tetraciclinas, cloranfenicol e dipropionato de imidocarb, além
de suplementos para estimular a medula a produzir glóbulos vermelhos. Toda a
medicação deve ser prescrita e administrada por um veterinário, já que algumas
podem provocar reações que devem ser monitoradas .
Em animais muito debilitados as transfusões de sangue podem ser necessárias.
Quando o tratamento é instituído no início da doença, o
prognóstico é favorável
Prevenção
A prevenção deve ser feita no sentido de evitar a exposição
dos animais aos carrapatos. Não existe nenhum produto repelente de carrapatos,
mas deve-se na medida do possível, manter o ambiente livre de carrapatos, usar
produtos carrapaticidas no cão, estar atento a qualquer mudança no animal
levando-o ao veterinário o mais rápido possível.
BABESIOSE
Atinge animais silvestres e domésticos, é causada por um protozoário (Babesia canis, B. gibsoni,
B. cati, B. felis, entre outros) também transmitido por carrapatos do gênero Rhipicephalus sanguineus e que parasita as células vermelhas do sangue. Após a
exposição o período de incubação é de 10 dias a três semanas. Também pode ser
transmitida via transplacentária, ou ainda, transfusão sanguínea. Ocasiona
anemia progressiva como principal sintoma clínico.
 |
| Babesia canis em hemácia de um cão |
A babesiose canina
pode ser subclínica, hiperaguda ou crônica. Os sintomas clínicos mais comuns são:
depressão, debilidade, anorexia, mucosas pálidas, icterícia (coloracão amarelada
das mucosas), febre e aumento do baço.
Em cães com doença grave, se observam petéquias, diminuição de plaquetas
ou coagulação intravascular disseminada. As infecções crônicas se caracterizam
por febre intermitente, apetite caprichoso, e acentuada perda de peso. Há
formas atípicas da doença que podem causar sintomas raros como: ascite, edema
periférico assimétrico, estomatite ulcerativa, transtornos gastrointestinais,
sinais nervosos, sintomas respiratórios e alterações circulatórias.
A babesiose felina afeta gatos com menos de dois anos e se
caracteriza por inapetência, letargia, debilidade, pelagem áspera e mucosas
pálidas e diferentemente da canina, raramente provoca febre.
Diagnóstico
Feito através de exame laboratorial. Pode-se observar anemia
hemolítica, bilirrubinemia, bilirrubinúria e hemoglobinúria. Também observa-se
anisocitose, policitose, policromasia e eritrócitos nucleados. A observação do
parasita em esfregaços de sangue periférico, corados com Giemsa confirma o diagnóstico, ou ainda mais confiável, o PCR para babesia.
Tratamento
Assim como na Erliquiose o tratamento deve ser feito por um veterinário que estará atento aos efeitos colaterias e correta aplicação e prescrição dos produtos.
Utiliza-se tratamento de suporte e parasiticidas como aceturato de diminazen, isetionato de fenamidina e
dipropionato de imidocarb.
Quando a anemia é muito grave e o hematócrito está menor que
15%, indica-se a transfusão de sangue completo fresco de um doador saudável.
Também deve-se utilizar, ferro, vitaminas do complexo B e esteróides
anabolizantes para favorecer a produção de eritrócitos.
Para gatos, utiliza-se o fosfato de primaquina e transfusões
de sangue como nos cães.